OUTONOA manhã veio junto com uma brisa fresca outonal. Contemplei o quintal de casa e observei que as sombras das árvores haviam trocado de lugar em uma dança natural de desenhos intrigantes.
Dias nublados, manhãs frias, a cor cinza predominando, pergunto-me, estará a minha alma com energia armazenada suficiente para enfrentar o cinza, o frio e a sombra?
Livros na estante cobertos de pó, sufocados, em último suspiro pedem para ser lidos e apreciados.
Em um canto do quarto das bugigangas uma estufa elétrica, saudosa da corrente que a alimenta, aguarda sua reintegração à sala de estar.
No mercado colonial, um vinho tinto de garrafão, produzido nos vinhais de Bento, tira um leve sono antes de vir parar em minha adega.
Pipocas de microondas causam câncer. E o quê não causa? Responda-me o cientista de plantão. Pipocas de microondas, as quero sim, sabores variados, manteiga, queijo, tradicional, canela, mel, vou resgatá-las das gôndolas frias do mercado e fazê-las pular de alegria no forno quentinho.
E a erva buena, trazida de Venâncio, espantará de vez o fantasma que acinzenta a alma, bastará uma cuia do amargo para aquecer as profundezas do meu ser e colocar um sol a brilhar e fortalecer meu espírito.
E, quem sabe, revigorada, terei mais que um simples cobertor a esquentar meu corpo quando o rigor do inverno entrar intrépido pelas frestas da janela do quarto de dormir.