sexta-feira, 2 de maio de 2008

Tarde Outonal


TARDE OUTONAL

Chuva fina e fria
pequenos brilhantes na janela
escorrem em desenhos abstratos.

Um coração,
um gato,
um rosa despetalada
na vidraça
molhada.

A brisa gélida,
inconveniente visita
a torturar a alma,
se espreita
pelas frestas da porta.

Livro de poesias,
manta de lã,
xícara de chá,
filme antigo
preto no branco
sem efeito
repleto de conteúdo.
Barricadas sólidas
para banir a tristeza
da tarde outonal.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Gotas Amargas


GOTAS AMARGAS

A chuva fria,
a lágrima quente,
morna água
em mistura
agridoce
sentida entre lábios prensados,
sufocando a dor
da palavra
presa na garganta ardida.

Gritos
lamentos
dores.

Esquecer a revolta
pelo brado injusto
do amigo insano
que precisa colo
de mãe e amor de mulher
para curar-se
de si mesmo.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Fantasmas


FANTASMAS

Olho o olho no espelho.
No fundo vejo a alma
longe,
acenando o lenço branco
da saudade menina.

A catarata anuvia o brilho.
A miopia distorce o sorriso.
Aproximo o espelho
agora embaçado
pela respiração morna.
Apaga-se a pálida imagem.

A lágrima teimosa
escoa pelo leito conhecido
da pele marcada
indo morrer
no canto do lábio sem cor.

Um pigarro disfarça a dor,
afasta a lembrança.

Um suspiro alivia a alma.

O espelho retorna
ao tampo da cômoda.

Deixo-me engolir pela rotina.

Os fantasmas, presos ao aço,
cochilam.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Transgenia


TRANSGENIA

A flor azul
e seu suave perfume
de sorvete artificial de morango
encantam o olfato
dos privilegiados
que o possuem.

Olhos biônicos
apreciam a beleza sinistra
da água rósea-ferrugem
do lago
cercado de hortênsias marrons.

O céu verde,
com nuvens pretas,
anuncia a chuva ácida
que irrigará
extensas plantações
de soja e milho
que abastecem os tanques
dos carros
da novíssima geração
de seres quadrúpedes,
de cérebros opacos,
que se alimentam de cápsulas gelatinosas.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Destino


DESTINO

A grade se abre,
a janela escancara,
permanece a resistência.

A tensão de cordas invisíveis
retém o desejo de ir além.

A realização do desejo
é um abandonar o passado
transformando em realidade
um sonho reprimido.

É preciso mais que força,
é preciso vontade,
energia que move
em direção ao futuro
de escolhas incertas
a que os tolos
chamam destino.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Janela Cerrada


JANELA CERRADA

A sombra da noite permanece
na alma atormentada.

O sol brilha, os passarinhos cantam,
as flores desabrocham, as crianças riem,
o ar é puro...

Mas faltam forças para escancarar a janela cerrada.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Amarras


AMARRAS

Presa em sua própria armadilha, se debatia.
Arranhava-se nas cordas,
sentia o sangue escorrer pelos braços,
pernas e face,
misturando-se às lágrimas
que faziam as feridas arder.

Cansada, aquietava-se,
encolhida, desistindo de lutar,
sem forças, sem ânimo,
calada, adormecia.

Pensava ser o último sono,
desejava não mais acordar,
queria ser livre,
a morte era seu passaporte.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Outono


OUTONO

A manhã veio junto com uma brisa fresca outonal. Contemplei o quintal de casa e observei que as sombras das árvores haviam trocado de lugar em uma dança natural de desenhos intrigantes.

Dias nublados, manhãs frias, a cor cinza predominando, pergunto-me, estará a minha alma com energia armazenada suficiente para enfrentar o cinza, o frio e a sombra?

Livros na estante cobertos de pó, sufocados, em último suspiro pedem para ser lidos e apreciados.

Em um canto do quarto das bugigangas uma estufa elétrica, saudosa da corrente que a alimenta, aguarda sua reintegração à sala de estar.

No mercado colonial, um vinho tinto de garrafão, produzido nos vinhais de Bento, tira um leve sono antes de vir parar em minha adega.

Pipocas de microondas causam câncer. E o quê não causa? Responda-me o cientista de plantão. Pipocas de microondas, as quero sim, sabores variados, manteiga, queijo, tradicional, canela, mel, vou resgatá-las das gôndolas frias do mercado e fazê-las pular de alegria no forno quentinho.

E a erva buena, trazida de Venâncio, espantará de vez o fantasma que acinzenta a alma, bastará uma cuia do amargo para aquecer as profundezas do meu ser e colocar um sol a brilhar e fortalecer meu espírito.

E, quem sabe, revigorada, terei mais que um simples cobertor a esquentar meu corpo quando o rigor do inverno entrar intrépido pelas frestas da janela do quarto de dormir.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Grande Fogueira


A GRANDE FOGUEIRA

Na treva da noite,
à hora marcada
ramos secos,
gravetos,
fósforos
iniciarão a grande fogueira.

O ritual de passagem exige
que as chamas cumpram a tarefa
de fazer retornar ao pó
o que por um tempo deixou de sê-lo.

Alimentarão o fogo
as cartas com palavras de amor,
de sonhos vividos,
de sonhos sonhados,
de paixões ardentes
qual o fogo
que as consumirá
como o tempo as consumiu.

Às chamas os cartões
que acompanharam
as singelas violetas,
as sofisticadas orquídeas e
as insinuantes rosas vermelhas.

Dançando ao som dos estalos
dos gravetos verdes
bailarão as chamas
traçando no ar,
por ínfimos instantes,
formas de rostos e corpos,
fantasmas incandescentes
que se extinguirão
junto com o passado.

Na manhã seguinte
restarão apenas cinzas
misturadas à terra fria.

Tudo voltará ao pó
completando o ritual da grande fogueira
que extinguirá o objeto,
mas a dor
com o sujeito permanecerá,
o lamento de não ter o combustível
que queime as lembranças intactas
que assombrarão sua mente
até o fim dos seus dias.

Tempo do Amor-Amigo


TEMPO DO AMOR-AMIGO

Quando o fio
embranquece

Quando a dor
faz o passo claudicar

Quando o nome daquela pessoa
tão familiar
desaparece da memória

A idade nos ensina
Passou o tempo de menina

Passou o tempo
das risadas, dos medos,
dos mistérios, dos sonhos

É chegada a hora
da serenidade,
da gentileza,
do afeto sincero.

Momento da palavra sábia,
momento do amor-amigo.

Eternamente


ETERNAMENTE

Não quero pensar, para não sofrer.
Não quero viver, se não for para amar.
Vivo e penso e
sofro.

Te procurei no nosso lugar.
O mesmo rio, ou ilusão,
pois as águas se movimentam,
e o rio não é o mesmo.

Apanhei uma folha
caída ao chão,
da nossa árvore,
testemunha do nosso beijo.

A árvore é a mesma
ou não é mais,
a terra muda,
a seiva é outra.

Respirei a brisa da tarde fresca,
senti o perfume do nosso lugar,
um pouco de ti, um pouco de mim e
da natureza que vive lá.

Fechando os olhos,
ouvindo o leve murmúrio das águas,
sentindo o calor do sol,
respirando o aroma da tarde,
busquei na memória
o teu sorriso, o teu cheiro,
a tua boca, as tuas mãos,
e, naquele momento breve,
fomos um só novamente,
mesmo agora que somos dois e diferentes.

Meu amor, viverás sempre em mim,
e eu serei tua, até depois do fim.

Terapia Natural



TERAPIA NATURAL

Um véu invisível
de tristeza cinza
cobre minha face
e minha dor de alma.

Inquietação
no silêncio ensurdecedor.
Mente sob pressão, grita e pede
liberdade.

Saio em direção ao sol,
aperto o passo,
busco luz,
ultrapasso vultos,
atravesso ruas.

Minha razão me induz
a esconderijos seguros.
Meu coração corrige rotas
carregando-me para o ar,
o sol, a praia, o mar.

Solto os cabelos,
solto os ombros,
solto os braços,
aperto o passo,
corro, flutuo,
inspiro a brisa,
expiro a mágoa, o rancor,
a opressão, a raiva, o temor.

Água salgada,
espuma relaxante,
som exuberante,
das quebradas das ondas
explodindo em minha pele,
refrescando meu corpo,
aliviando minha alma.

Água ativa,
água com força,
água com vida,
que molha meu rosto,
aliviando a dor do meu interior.

Volto à areia,
macia e quente,
deito-me em seu colo,
fecho os olhos,
me deixo ninar.

Na pele a carícia
de um sol atrevido,
que brinca em meu corpo,
aquecendo, confortando
e marcando sua passagem
me cobrindo de ouro
como se uma rainha fosse.

Embriagada de prazer,
paz e esperança,
apagou-se da mente a lembrança,
de que estava triste nas sombras,
retorno para a vida,
forte e revigorada.

Saudades de Mim



SAUDADES DE MIM

A chuva desce
sobre a tarde triste,
ou sou eu a triste
na tarde chuvosa.

Lágrimas do céu,
lágrimas na minha face,
saudades de um tempo
no passado distante.

Tempo contente,
de corpos unidos,
almas unidas,
sonhos iguais.

Tempo sem volta,
passado longínquo,
pedaço de vida,
distante demais.

Chuva desperta
a lembrança adormecida,
na minha face derrama,
gotas sentidas.

Saudades da alegria,
saudades de ti,
saudades da vida,
saudades de mim.

Luz



LUZ

A tarde se despede,
as sombras da noite se avizinham.
Um vento frio leva embora
o calor da tarde
e torna minha alma mais fria.

Tenho medo da noite,
das suas sombras,
dos seus fantasmas,
dos sons exóticos,
das criaturas
da noite que
invadem minha mente
e me perseguem.

O que não vemos,
tememos.
O desconhecido é assustador.
Luz, brilho, visão,
desejo ver o que não existe,
espantar o que não é,
tornar o dia pleno
e a noite finda.